terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O Sonho - I


O dia arrastou-se sob a sombra do sonho. Ela tinha uma consideração forte por eles e muitas vezes era para ter mesmo. Os sonhos não lhe mostravam coisas à toa, eles nunca mostram alias. Sempre há um significado, claro ou oculto, por trás das imagens incoerentes e conflitantes. E muitas vezes, indesejáveis. Muito indesejáveis.
                Era curioso como um fato onírico podia abalar suas emoções dessa forma. Ela sentia como se tivesse acontecido de verdade e se afligia com essa impossibilidade de controle sob lembranças forjadas que ela não conseguia deter e que agora, gravadas na mente, azedavam seu dia. Pesava, como um acontecimento real.
                Decidiu que não seria uma boa ideia remoer sua aflição. A idéia que teve por algum tempo esteve fora de cogitação justamente por achar que deveria se afastar das lembranças, e não traze-las para perto dela, para que não fossem uma mina de recordações dolorosas que a prenderiam como uma bola de ferro ao mesmo lugar. Só que agora, depois de constatar que fazer o que julgava certo de nada adiantaria diante de um poder tão implacável e incontrolável quanto seu inconsciente, percebeu que talvez fosse o melhor. As vezes, para alcançar o bem precisamos combater o mal com o mal. E sabia bem qual era o seu mal.

                Tomou o caderno novo que comprara e por algum motivo nunca usara. Na verdade, não sabia nem porque havia sido comprado e mais uma vez pensou que o inconsciente deveria ter algo com aquela história. Pelo menos a parte boa de seu inconsciente. Abriu e pensou em como poderia começar a escrever aquilo, como passar para o papel uma dor?
               
                Dor, estou acostumada com a dor, com o abandono também. Parece que todas as partes da minha vida foram permeadas por um pouco deles. Aprendi a ser resistente com essa dor, mas também aprendi a ser fria e descrente.
                Estou cansada, muito cansada. É um cansaço desgostoso, que parece não me dar uma solução de como me livrar dele. Me traga, como um buraco negro, para um vazio frio e escuro. Me deixa triste. E isso é tudo o que não queria, ter meus sentimentos abalados por essa dor que preferia ter trancado naquele baú velho nas profundezas da minha mente sem possibilidade de resgate. Mas não consigo superar algo que volta mesmo sem minha permissão, que quando esta sendo esquecida, vem como um trem me atropelar e num nocaute me joga na lona, deixando meu rosto mais uma vez com sangue fresco a escorrer, com uma dor latente a me entorpecer. Quando vou ter paz? Quando me livrarei dos meus demônios? E como fazer isso, como exorcizá-los? Será que consigo aprender uma maneira disso acontecer e me ver enfim livre?

                Quando levantou os olhos piscou surpresa por já ter se esgotado o tempo livre que tinha. Fechou o caderno e voltou ao serviço, ainda com o peso a lhe incomodar, mas agora, um pouco mais aliviada por estar expondo isso em algum lugar.

***

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