quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

A caverna III


Ninguém consulta as crianças quando alguma coisa de diferente vai acontecer na casa. Os adultos, aqueles gigantes imponentes sabem de tudo e não é necessário delongas ou explicações com aqueles que ficam lá embaixo observando os seus movimentos e falas complexas. Mas só o que ela conseguia imaginar, ao vê-lo parado na sala conversando com os pais quando chegou em casa era: quem era aquele estranho e o que ele estava fazendo ali? Por alguns minutos sentiu-se incomodada com a presença nova e o modo como ninguém lhe dizia o que estava acontecendo. Só mais tarde soube que ele viera para ficar por algum tempo. Ela não se lembra de muito mais além disso, mas, como uma fotografia, se fixou em sua mente esse primeiro impacto da estranheza e do leve medo do desconhecido, ao vê-lo no espaço que ela considerava familiar e seguro. Porém, ela veria que logo ele se incorporaria nesta sensação de intimidade doméstica e faria parte dela mais do que a própria família.

Ela lembra porque isso aconteceu. Seu pai sempre venerara o irmão, único que tinha. Naquele tempo ela achava que deveria se esforçar para ter a atenção de ambos. Uma vez tendo a atenção do irmão, ela teria do pai, ou uma vez com o pai, ela poderia participar do que ele fazia com o irmão, que eram sempre as coisas legais das quais ela nunca fazia parte. Era um esforço que uma criança não deveria precisar fazer, e que, neste caso, não dava tantos resultados. Mas quando esse desconhecido chegou, algo de muito importante mudou.

Ela não precisava se esforçar e não havia rejeição. Surpreendentemente, ele parecia gostar dela. Assim, conseguindo uma atenção espontânea que ela não tinha do pai e que tanta falta sentia, passou a gostar dele também. Não, se lhe perguntassem se ela transferiu o amor paterno que carecia para ele, ela diria que não. Não era amor paterno aquilo. Que tipo de amor era não saberia explicar, mas fora uma afeição que mudou o modo como se sentia consigo mesma. Enfim, ela descobriu um espaço para si dentro de sua casa, não se sentia mais tão sem graça, pequena ou insignificante demais para não ter para si um zelo maior. Ganhara um espaço afetivo sem disputas ou tentativas vãs de conquistas. Ele poderia ter escolhido qualquer outra pessoa mais fácil, mas foi para ela que se voltou. Era seu e ninguém lhe tiraria isso.

Sua vida infantil passou a ter sentido enquanto ele lá estava. Ela sentia-se importante e especial nutrindo aquele amor estranho que só os dois compreendiam, cada um a sua maneira, talvez. Às vezes sentia-se sua boneca, com ele lhe mimando em presentes e lhe colocando do seu lado sempre que podia, pelo simples desejo de tê-la por perto; vezes sentia-se sua namorada – embora ela não pudesse compreender exatamente o que isso era de verdade com aquela idade, mas numa essência pura e inocente, era isso o que lhe parecia, e ela gostava do modo como ele a queria apenas para si – vezes sua irmã mais nova, com suas maneiras cuidadosas, preocupando-se com ela como se fosse um membro direto daquela família. De todas essas formas de se sentir perto dele, era unanime a sensação de proteção e carinho que ele lhe passava, como se, antes de qualquer adulto que pudesse lhe atrair mais a atenção, ela fosse sua prioridade. E essa exclusividade que ele lhe detinha, lhe dava os créditos para ser tudo em sua vida, tudo o que quisesse. Pois ele era tão especial e estava se tornando tão insubstituível e necessário em sua vida, que era difícil demais pensar em perdê-lo.

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