domingo, 31 de julho de 2011

"Making of" dos meus contos - VII Demônios (GULA)

Continuando os meus Making of, ou por onde tudo começou...(sim, eu sou viciada nessa coisinha de bastidores, ehehe), o tema dessa vez dos 5 livros dos quais participo da Editora Estronho é a série VII Demônios.

Peculiar essa série da Estronho. Quando eu comecei a reparar nela, já tinha se passado o primeiro tema (Inveja) do qual seria um dos que eu gostaria de escrever. Mas tem coisas que demoram a serem ‘vistas’ e o potencial da série dos demônios só me chegou aos olhos de forma interessante quando eu passei a entender a proposta: pecado + demônios. A idéia girava em torno dos 7 pecados capitais, associados aos seus 7 demônios. Os pecados deveriam ser retratados, tentando isola-los dos outros (um desafio!), utilizando-se dos demônios respectivos, mas não era necessariamente uma obrigatoriedade. 


Mas eu, tendo meu gosto pelo terror amadurecido por criaturas bestiais do universo de Spawn, não podia ignorar uma chamada dessas, nem a oportunidade de me utilizar (não, me esbanjar) das crias do inferno, de modo que usei cada respectivo demônio nos meus contos.

E lá se vai mais uma vez o ponto mais importante: pesquisa. A Estronho dava um parecer breve sobre os demônios que estava por trás de cada pecado, segundo o demonologista e teólogo Peter Binsfeld. Fui atrás de historias sobre os bestiais, suas características, tirando pontos chave para permear a historia, que não devia ser muito longa, de seus detalhes cruciais. Assim como também me embreei pelo universo de cada pecado do qual trabalhei e descobri muita coisa subjetiva neles, que eu nem imaginava que poderia representa-los da forma que fazia. Era um jogo de interpretação, remetido desde os tempos mais remotos, até nossa infausta era atual. Mesmo que eu não escrevesse sobre o tema, me foi muito interessante saber tanto sobre eles e enxergar seu potencial.


Bem, no inicio, eu criei alguns “pré” conceitos dos 7 temas, dizendo quais eu me interessava e quais eu não conseguiria tirar nada de bom para escrever. Leigo engano. Mais uma vez o desafio de contos me ajudou nessa parte, mas dessa vez não foi por ser um tema incomum. Esse, de longe, é o tema que mais perto esta dos meus gostos. Mas pelas particularidades deles poderem me atrair ou não num primeiro momento.

Eu disse assim: “Os pecados que eu não acho que conseguiria escrever muita coisa: Gula, Preguiça, Luxuria”, era como se estivesse prevendo algo, minha própria sina em me contradizer. Rs.


Pois, foram os 3 temas no qual resolvi escrever e fui selecionada. Ah-ah.


O primeiro livro: GULA

  GULA (BELZEBU)


Um conto inusitado. O prazo dele estava junto com o da Inveja, mas eu perdi o fio da meada para fazer o primeiro conto e comecei a olhar a Gula do mesmo modo que se olha um doce curioso na vitrine que num primeiro momento você repudiou por uma cor berrante ou por parecer excessivamente melado, mas, depois, voltando a ele, você começa a perceber que ele tem detalhes que podem ser melhores do que a sua primeira opção e talvez até um gosto mais original. 

De inicio eu só cogitei a idéia. Tentando varrer minha mente em busca de algo que se encaixasse com o tema, me lembrei de uma historia antiga que tinha escrito, na verdade, de um acontecimento numa historia escrita há muitos, muitos anos. Me deu um lampejo. Era um tempo em que escrevi muitas coisas baseadas em contos de fadas e fábulas, pois, nas manhãs de domingo, meu pai insistia que eu assistisse um programa que passava na TV Cultura chamado “O teatro dos contos de fada”. No inicio fiz isso relutante, mas depois comecei a gostar, principalmente por ele desmitificar aquelas historinhas amaciadas que os estúdios da Disney nos enfiam na cabeça quando somos pequenos, e conhecemos contos de fadas somente através de historias cheias de açúcar. Esse não, as encenações eram como um teatro mesmo, pessoas reais, um cenário, e uma historia verdadeira. Nele, a Ariel da Pequena Sereia morria no final e nem era tão boazinha assim, e a Bela da Fera na verdade foi refém do monstrengo por um bom tempo, após ele ameaçar de morte seu pai; o Flautista mágico levou as crianças, como atraia os ratos, para outra dimensão, sem que sem pais nunca mais voltassem a vê-los. Era a real das historias, que na época, eu ainda desconhecia, e gostei muito de ser apresentada a essas versões originais.

Uma das historias que escrevi na época baseada em tais fabulas, foi um acontecimento envolvendo o mito de João e Maria. Os irmãos que para não se perderem na floresta, deixam migalhas de pão pelo caminho, e acabam na casa da bruxa má, que tem uma choupana feita de doces e que aprisiona João, para engordá-lo e depois comê-lo.

Casa de doces...comer Joãozinho...gula...era isso!


Só que coloquei tudo elevado ao extremo. Os sentimentos humanos deformados, os desejos, as vontades irracionais. Pois a Gula não tem a ver apenas com comida, ela é um estado de insatisfação desmedido, que se reflete em vários atos, além da refeição convencional. Pode-se querer se alimentar de conhecimento, assim como também do desespero, ou de almas.
Não foi proposital, mas as primeiras palavras que escrevi dele foi durante meu intervalo de almoço, na cozinha do meu serviço. Rs. Ao terminar a primeira pagina, olhei ao redor e pensei “Que lugar inspirador, rs”.

Eu não esperava que ele fosse ser aceito, por alguma razão, o achei pesado. Também não foi de propósito, para ter nuances tépidas suficientes para agradar, mas acho que fui envolvida em seu clima mórbido por conta própria e a escrita se tornou tão densa quanto o tema. No final, era como acordar de um baquete do diabo e me surpreender com o modo como me fartei, e de como a cozinha estava toda suja de sangue. Uau...sai meio tonta de lá, mas não sem antes deixar o feito nas mãos interessadas. O que iam fazer depois, eu já não sabia.

Gostei muito de participar deste volume com A Filha do Mal e desentranhar algumas facetas de Baal-zebu.

Inspirações musicais para o tema dos VII Demônios é sempre muito parecida: tirando algumas composições especificas, eu uso quase todas as musicas da trilha sonora do Silent Hill, desde o primeiro jogo (1 ao 4 "The Room") até os mais recentes (Origins, Homecoming, Shattered Memories). Elas são simplesmente soberbas para quem gosta de escrever terror. Akira Yamaoka é meu guia musical nos escritos do gênero.

Um trechinho de degustação de A filha do mal:

"Ele jogou-a sobre uma mesa e pelo cheiro pérfido, aquele era um verdadeiro matadouro. Sentia o sangue fresco no qual deitara encharcando suas roupas, fez uma careta de asco, mas nada comparado ao terror que sentiu em ver a criatura com braços humanos, mas um corpo semelhante a uma mosca gigante. Tentou gemer, debater-se, mas todas suas ações tornaram-se inúteis diante da gelatinosa sensação em que estava imersa."
(...)


Algumas inspirações musicais mais fortes:
A Stray Child - (Akira Yamaoka in Silent Hill 3) 
Searching the Past (Akira Yamaoka in Silent Hill Shattered Memories)
Max Payne OST (Marlyn Manson) 

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Os autores selecionados, com os quais compartilho este volume:
Amanda Reznor (Tributo a "El-Rei"), Claudia Zippin Ferri (A ficha criminal da juíza), Fabiane Guimarães (O devorador de almas), Ghad Arddhu (Banquete de Maná e oração à unificação), Lemos Milani (Bon Gourmet), Lino França Jr. (O voo da mosca), Marcelo Augusto Claro (Abismo visceral), Marius Arthorius (Beelzebub carne vorare), Raphael Montes (Banquete), Valentina Silva Ferreira (Condenado), Verônica Freitas (A filha do mal) e William Nascimento (Um pequeno pedaço do paraíso).






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