domingo, 19 de janeiro de 2014

Areia entre os dedos

Parece um sonho. Foi tudo um sonho. Não, não foi, mas parece ter sido. Algo forjado pela matéria prima do desejo, ganhando uma forma sutil, quase material. desvaneceu-se no seu auge, como os sonhos são. Desfeitos em areia, a escorrer pelos dedos.






Vestigios

"Seus olhos estão pesados, como se carregassem com as lágrimas o peso de chumbo. E se sente sozinha, extremamente sozinha. Uma solidão diferente, que a faz se sentir excluida, uma suiça. Uma suíça da sua sociedade conhecida.

Caminha entre as pessoas observando seu comportamento. Se camufla e observa. Se mescla à multidão e os absorve. É o único jeito que conhece para se sentir um pouco mais humana e chamar menos atenção".



domingo, 13 de outubro de 2013

Reflexão



“E eu estou desperto quando irrompe a aurora, 

embora meu coração padeça. Deveria estar 

brindando a amigos ausentes e não a estes 

comediantes.” 

(Elvis Costello)

domingo, 24 de março de 2013

Os sentimentos são vias de mão única




"Amar os outros é a única salvação individual que conheço. Ninguém estará perdido se der amor e, às vezes, receber amor em troca." (Clarice Lispector)

Não espere pelo amor do outro, pela atenção, ou por um carinho retribuído. Por experiência aprendi que tanto sentimentos bons como ruins não são vias de mão dupla, recíprocos, retornáveis e sim de mão única.
Se o que você sente por alguém for o suficiente para te fazer feliz, então realize-se com isso, não esperando por essa satisfação apenas pelo retorno do outro, esse retorno pode nunca vir, ou não do jeito que você gostaria. O outro pode muito bem não ter o mesmo sentimento que você tem por ele, ou com a mesma intensidade.

Ás vezes somos egoístas, achando que as pessoa devem sentir por nós o mesmo que sentimos por elas. Todos somos diferentes e encaramos a necessidade e a importância das coisas por ângulos diferentes. Eu posso ser carente e precisar da sua amizade bem mais do que ela representa para você. Ou eu posso estar me apegando a um sentimento que para mim continua vivo, mas para você já desbotou. Ás vezes, para nos sentirmos mais importantes, mais amados, necessitamos de palavras que expressem isso, verbalizadas, escritas, de alguma forma manifestadas, mas e o outro? Será que ele acha importante essa forma de expressão ou ele acha que você entende o que ele sente de maneira silenciosa e como já fazem isso há muito tempo e você nunca disse nada é porque é assim que deve ser.


"As vezes entregamos incondicionalmente nosso coração a quem menos pensa em nós."

Porque isso acontece? Porque atribuímos um status tão importante a uma pessoa e de repente, nos frustramos ao descobrir que nem somos tão importante assim para ela? Será que criamos expectativas demais em relação ao que esperamos de retorno, mas sem perceber que esse retorno está mais baseado no que NÓS faríamos do que o que o OUTRO faria?

O que fazer quando percebemos que gastamos nossas energias, nos dedicamos demais pelas pessoas erradas?
Por algum tempo eu insisti um pouco mais, achando que meu empenho daria resultados, mas a frustração e a constatação de que os sentimentos não são produtos retornáveis, e sim vias de mão única, como chamadas de longa distancia para outra galáxia, onde às vezes, com sorte, temos algum retorno, comecei a pensar se vale a pena perder tanto tempo a procura do outro. Será que ao perder esse tempo eu também não estava perdendo um pouco do meu amor próprio?




sábado, 9 de março de 2013


sábado, 9 de fevereiro de 2013

O demônio e o tempo


Me enviaram este texto e achei interessante. Acho que tem é uma leitura para se pensar.





O OUTRO  - Neil Gaiman


-O tempo é fluído aqui - disse o demônio.

       Ele soube que era um demônio no momento em que o viu. Assim como soube que ali era o inferno. Não havia nada mais que um ou outro pudessem ser.
       A sala era comprida e na outra extremidade o demônio o esperava ao lado de um braseiro fumegante. Uma grande variedade de objetos pendia das paredes cinzentas, cor de pedra, do tipo que não parecia sensato ou reconfortante inspecionar muito perto. O pé-direito era baixo e o chão, estranhamente diáfano.

       -Chegue mais perto - ordenou o demônio, e ele se aproximou.

       O demônio era esquelético e estava nu. Tinha cicatrizes profundas, que pareciam frutos de um açoite ocorrido num passado distante. Não tinha orelhas nem sexo. Os lábios eram finos e ascéticos, e os olhos condiziam com os de um demônio: tinha ido longe demais e visto mais do que deveriam. Sob aquele olhar, ele se sentia menos importante do que uma mosca.

       -O que acontece agora? - ele perguntou.

       -Agora - disse o demônio com uma voz que não demonstrava sofrimento nem deleite, somente uma horripilante e neutra resignação - você será torturado.

       -Por quanto tempo?

       O demônio balançou a cabeça e não respondeu. Ele percorreu lentamente a parede, examinando uma a um os instrumentos ali pendurados. Na outra extremidade, perto da porta fechada, estava um açoite feito de arame farpado. O demônio o apanhou com uma de suas mãos de três dedos e retornou, carregando-o com reverência até o outro lado da sala. Pôs as pontas de arame sobre o braseiro e observou enquanto se aqueciam.

       -Isso é desumano.

       -Sim.

       As pontas do açoite ganharam um brilho alaranjado.
       Quando ergueu o braço para dar o primeiro golpe, o demônio disse:

       -No futuro você sentirá saudades deste momento.

       -Você é um mentiroso.

       -Não - respondeu o demônio. - A próxima parte é ainda pior - explicou, pouco antes de descer o açoite.

       As pontas do açoite atingiram as costas do homem com um estalo e um chiado, rasgando-lhe as roupas claras. Elas queimavam, cortavam e estraçalhavam tudo o que tocavam. E, não pela última vez naquele lugar, ele gritou;
       Duzentos e onze instrumentos repousavam nas paredes da sala e, com o tempo, ele experimentou cada um deles.
       Por fim, a filha do Lazareno, que ele acabou conhecendo intimamente, foi limpa e recolocada na parede na duocentésima décima primeira posição. Nesse momento, por entre os lábios rachados, ele soluçou:

       -E agora?

       -Agora começa a dor de verdade - informou o demônio.

       E começou mesmo.
       Cada coisa que ele fizera e que teria sido melhor não ter feito. Cada mentira que contara - a si mesmo ou aos outros. Cada pequena mágoa, e todas as grandes mágoas. Cada uma dessas coisas foi arrancada dele, detalhe por detalhe, centímetro por centímetro. O demônio descascava a crosta do esquecimento, tirava tudo até sobrar somente a verdade, e isso doía mais que qualquer outra coisa.

       -Conte o que você pensou quando a viu indo embora - exigiu o demônio.

       -Pensei que meu coração ia partir.

       - Não, não pensou - contestou o demônio, sem ódio. Dirigiu seu olhar sem expressão para o o homem, que se viu forçado a desviar os olhos.

       -Pensei: agora ela nunca saberá que eu dormia com a irmã dela.

       O demônio desconstruiu a vida do homem, momento por momento, um instante medonho após o outro. Isso levou cem anos ou talvez mil - eles tinham todo o tempo do universo naquela sala cinzenta. Lá pelo fim, ele percebeu que o demônio tinha razão. Aquilo era pior que a tortura física.

       Mas acabou.

       Só que, quando acabou, começou de novo. E com uma consciência de si mesmo que ele  não tinha da primeira vez, o que de certa forma tornava tudo ainda pior.
       Agora, enquanto falava, ele se odiava. Não havia mentiras nem evasivas, nem espaço para nada que não fosse dor e esquecimento.
       Ele falava. Não chorava mais. E, quando terminou, mil anos depois, rezou para que o demônio fosse até a parede e pegasse a faca de escalpelar, ou o sufocador, ou a morsa.

       -De novo - ordenou o demônio quando ele se calou, como se nada tivesse sido dito até então.

       Era como descascar uma cebola. Dessa vez, ao repassar sua vida, ele aprendeu as consequências. Percebeu os resultados das coisas que fizera; notou que estava cego quando tomou certas atitudes; tomou conhecimento das maneiras como infligira mágoas ao mundo; dos danos que causava a pessoas que jamais conhecera, encontrara ou vira. Foi a lição mais difícil até aquele momento.

       -De novo - ordenou o demônio, mil anos depois.

       Ele agachou no chão, ao lado do braseiro, balançando o corpo de leve, com os olhos fechados, e contou a história de sua vida, revivendo-a enquanto contava, do nascimento até a morte, sem mudar nada, sem omitir nada, enfrentando tudo. Abriu seu coração.
       Quando acabou, ficou ali sentado, de olhos fechados, esperando que a voz dissesse: "De novo". Porém, nada foi dito. Ele abriu os olhos.
       Lentamente, ficou de pé. Estava sozinho. Na outra ponta da sala havia uma porta, que enquanto ele olhava, se abriu.
       Um homem entrou. Havia terror em seu rosto, e também arrogância, e orgulho. O homem, que usava roupas caras, deu alguns passos hesitantes pela sala e parou.
       Ao ver o homem, ele entendeu:

       -O tempo é fluido aqui.
      
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domingo, 27 de janeiro de 2013

A caverna IV




Os ônibus passavam sem que tivesse vontade de parar em nenhum dos pontos para tomar um e sair da chuva que engrossara e tornara-se torrencial. A verdade é que a tormenta também escondia suas lágrimas, pois pensar naquilo lhe revolvia o intimo e lhe deixava sensível. Livre, era assim que se sentia ao percorrer a longa avenida sem se preocupar, pois sua mente estava em outro lugar, com outras preocupações. Preocupações perdidas em outra existência...
O que aquele homem realmente sentia por ela? Apesar de, muito tempo depois, tentar transformar esse sentimento numa mentira, ela, de verdade, não conseguia imaginar que fosse isso. Podia ser inocente, mas até mesmo olhando a situação de longe, muito tempo depois, não sentiu que foi de todo ingênua em acreditar que o que ele sentia por ela não fosse verdadeiro. Era. Só não conseguia definir o grau disto, ou o porquê de certas coisas. E a complexidade a afastou de definir uma explicação ou julgamento, como outros queriam. Dentro dela, sempre houve esse vácuo do motivo, da razão daquele amor ter se distorcido e se transformado em algo que foi taxado como mau, pervertido, relegado ao silencio constrangido da família.
Não conseguia pensar naquilo de uma maneira linear como até aquele momento. Ao chegar nesta parte da história, ela se picotava em recortes que iam e vinham e respirou fundo, aspirando agua fria que caia por seu nariz para tentar colocar as coisas no lugar. Sua visão se turvava da chuva ou de lagrimas?
Ela sabia de uma coisa que talvez ninguém mais soubesse ou se preocupasse em entender: não foi por pura maldade que, com o tempo, ele transformou sua afeição à ela em algo que ela não compreendia com sua pouca idade. Se ela soubesse da celebre e polemica personagem de Nobokov naquela época, pensaria se ele não a transformou na sua própria Lolita? Talvez...mas aquela da historia do russo não nutria nada de especial por seu Humbert e vivia com seu sequestrador pelo fato de ela mesma sentir-se perdida e não ter para onde ir. Se não ficasse com ele, se não se aproveitasse da atenção que ele lhe atribuía, com quem mais estaria? Mesmo que para isso, tivesse que viver experiências que nada tinham a ver com sua condição precoce de pré-adolescente.
A situação era parecida? Será...? Ao contrário de Lolita, ela nutria sim um forte amor por aquele homem que ali estava lhe dando toda a atenção que sempre quisera ter Mas por medo de perdê-lo, submeteu-se as suas vontades estranhas. Tinha um fundo da ficção, mas continuava não o associando ao pervertido Humbert-Humbert. Só não sabia se fazia isso por não saber ao certo a versão dele nesta história ou se porque sentia que seus sentimentos se diferenciavam do estuprador pedófilo numa escala que só ela conseguia entender.
Mas o fato era: ela descobriu o sexo muito antes do que qualquer pessoa que conhecia poderia conceber. Não era à toa que sentia-se tão predisposta a volúpia nos dias de hoje: as raízes eram essas. Precoces e conturbadas, estranhas e até mesmo imorais.
O que ela pensava sobre isso? Ela preferiu andar um pouco, silenciando até seus pensamentos, deixando apenas o olhar vagar pelas poças d’agua refletindo as luzes dos carros e dos postes. Parou finalmente num dos pontos, lembrando que costumava tomar o ônibus ali de volta para a rodoviária da cidade quando saia do estagio que fazia naquele bairro. Ótimo, já deixara outro pensamento entrar em sua mente, dando-lhe um descanso daquela historia perturbadora.
Só debaixo da proteção do ponto começou a sentir frio e tremer. Olhando a chuva que continuava a cair e não dava trégua, não teve coragem para tornar a encara-la e talvez fosse ai o fim daquele passeio reflexivo.  Estava na hora de voltar para casa e começou a fitar o horizonte desejando que viesse logo uma condução que lhe tirasse do frio da noite.
Então um carro parou no meio fio e demorou alguns segundos para entender que era com ela. Sentiu um calafrio e suas defesas naturais sempre em alerta contra estranhos – não, contra homens, mesmo que quem saísse daquele carro não fosse um, sua associação ao perigo era imediata – fizeram dar um passo para trás e ficar de sobreaviso. Quando o vidro desceu, experimentou um segundo de engulho, porque se fosse algum homem querendo alguma besteira...
— Menina, você esta encharcada! O que ta fazendo aqui?
Um suspiro de alivio imediatamente percorreu seu corpo tremulo de frio e apreensão. Eram apenas colegas do trabalho que por lá passavam. Atribuíram sua palidez ao frio e pediram que entrasse, coisa que ela se recusou a principio, argumentando que molharia todo o estofamento, mas não teve opção e logo estava no calor característico de um carro fechado na chuva. Agradeceu mentalmente pelo conforto que tanto precisava....
Houve alguns minutos de conversa trivial e ela não deu muitas explicações do motivo de estar andando sozinha na chuva além daquelas que serviriam para fazê-los se desinteressarem de continuarem questionando. Tudo em você é esquivo, lembrou da amiga que deixara em casa lhe dizendo e sorriu consigo mesma.
Depois de um tempo caiu em seu silêncio habitual olhando aquele casal que conduzia o veiculo, no modo como brincavam, se entendiam e pareciam normais: teriam tido experiências que lhe distorceram a personalidade quando pequenos? Não parecia...e quando percebeu, a fresta daquela porta para seu passado novamente se abriu e ela, olhando a paisagem passar velozmente pelo vidro embaçado, se perdeu novamente numa época ha muito longínqua.

***

Se você esta começando a achar isso interessante, comente o que pensou.
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