quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Sonho - II




Estava nos degraus da casa da amiga esperando que o ônibus que a traria do centro da cidade chegasse. Enquanto isso, dedicou um pouco mais de seu tempo a escrita do caderno do qual aquela manhã encontrara bom uso.

                Por muito tempo evitei escrever sobre...essa pessoa, sobre o que me faz e me fez sentir sua simples existência. Havia uma espécie de admiração por ele que fazia-me oculta-lo sob um véu de clandestinidade, e de proteção. Eu o protegia, protegia o que éramos ou fazíamos. Só que hoje não há mais nada que sustente essa antiga admiração. O que há é apenas desprezo e ódio, algo corrosivo e que me consome num sentimento negativo que levou tudo o que poderia sentir de bom embora. Não consigo mais ter nada de bom pela pessoa que me fez sentir como eu me senti e ainda me sinto, então, aquela preocupação em protege-lo esvaiu-se como se fossem cartas de um castelo que só agora me dava conta do quão frágil e ilusório era.
                Não tenho mais motivo nenhum para esconder dentro de mim o que possivelmente pode ser a chave para que eu me liberte deste demônio nostálgico, que me revira as lembranças criando terríveis mosaicos oníricos. Escrever deve ser a única solução. E falar talvez...

                Ela termina a frase sem conclusão ao ouvir o estrondoso som do circular que vem a toda descendo a ladeira que leva até o ponto de  ônibus, em frente a casa na qual aguarda.  A amiga salta e se cumprimentam, e enquanto destranca a porta e seguem para cima, ela pergunta como esta e porque não parecia bem quando se falaram mais cedo pelo telefone. Sua boca coça para contar sobre o sonho, mas se falasse teria de explicar muito mais coisas do qual estava disposta. Olhou para o caderno em sua mão e o escondeu na bolsa antes que também pudesse gerar perguntas. A verdade é que a escrita era uma forma muito mais fácil de expor as coisas do que a fala. Com a escrita só precisaria debater com si própria. Então, desta forma percebeu que ainda não estava pronta para conversar com mais alguém sobre aquele caso. Inventou um outro motivo banal de estresse para tirar seu sossego do dia e foram se instalar na cozinha planejando algo para comerem.

***

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

O Sonho - I


O dia arrastou-se sob a sombra do sonho. Ela tinha uma consideração forte por eles e muitas vezes era para ter mesmo. Os sonhos não lhe mostravam coisas à toa, eles nunca mostram alias. Sempre há um significado, claro ou oculto, por trás das imagens incoerentes e conflitantes. E muitas vezes, indesejáveis. Muito indesejáveis.
                Era curioso como um fato onírico podia abalar suas emoções dessa forma. Ela sentia como se tivesse acontecido de verdade e se afligia com essa impossibilidade de controle sob lembranças forjadas que ela não conseguia deter e que agora, gravadas na mente, azedavam seu dia. Pesava, como um acontecimento real.
                Decidiu que não seria uma boa ideia remoer sua aflição. A idéia que teve por algum tempo esteve fora de cogitação justamente por achar que deveria se afastar das lembranças, e não traze-las para perto dela, para que não fossem uma mina de recordações dolorosas que a prenderiam como uma bola de ferro ao mesmo lugar. Só que agora, depois de constatar que fazer o que julgava certo de nada adiantaria diante de um poder tão implacável e incontrolável quanto seu inconsciente, percebeu que talvez fosse o melhor. As vezes, para alcançar o bem precisamos combater o mal com o mal. E sabia bem qual era o seu mal.

                Tomou o caderno novo que comprara e por algum motivo nunca usara. Na verdade, não sabia nem porque havia sido comprado e mais uma vez pensou que o inconsciente deveria ter algo com aquela história. Pelo menos a parte boa de seu inconsciente. Abriu e pensou em como poderia começar a escrever aquilo, como passar para o papel uma dor?
               
                Dor, estou acostumada com a dor, com o abandono também. Parece que todas as partes da minha vida foram permeadas por um pouco deles. Aprendi a ser resistente com essa dor, mas também aprendi a ser fria e descrente.
                Estou cansada, muito cansada. É um cansaço desgostoso, que parece não me dar uma solução de como me livrar dele. Me traga, como um buraco negro, para um vazio frio e escuro. Me deixa triste. E isso é tudo o que não queria, ter meus sentimentos abalados por essa dor que preferia ter trancado naquele baú velho nas profundezas da minha mente sem possibilidade de resgate. Mas não consigo superar algo que volta mesmo sem minha permissão, que quando esta sendo esquecida, vem como um trem me atropelar e num nocaute me joga na lona, deixando meu rosto mais uma vez com sangue fresco a escorrer, com uma dor latente a me entorpecer. Quando vou ter paz? Quando me livrarei dos meus demônios? E como fazer isso, como exorcizá-los? Será que consigo aprender uma maneira disso acontecer e me ver enfim livre?

                Quando levantou os olhos piscou surpresa por já ter se esgotado o tempo livre que tinha. Fechou o caderno e voltou ao serviço, ainda com o peso a lhe incomodar, mas agora, um pouco mais aliviada por estar expondo isso em algum lugar.

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O Sonho - Introdução



Acordou ofegante no meio da madrugada. Seus olhos aflitos fitaram a escuridão do quarto, mas na verdade é como se ainda estivesse vendo as imagens do sonho. Aquele terrível sonho recorrente.
         Ficou alguns minutos quieta, afundada no travesseiro, como se temesse que qualquer movimento pudesse trazer o sonho de volta. Maldito sonho.
         Depois de passado os momentos de apreensão, o sono desvaneceu-se e sobrou apenas um gosto acre na boca e um peso singular em seu intimo. Preferia ter pesadelos com monstros míticos e perseguidores sem rosto do que aquele tipo de  sonho, aquele que parecia uma brincadeira de mau gosto de seu inconsciente, a revirar o que ela preferia deixar nos mais profundos dos vales de sua mente para tentar esquecer.
         Mas como esquecer se, ao fechar os olhos não se tem mais controle sob aquilo que se quer ou não ver? E o seu próprio corpo lhe trai, trazendo a superfície  justamente o que devia ficar bem soterrado, aquilo que muito tempo demorou sequer para chegar lá no fundo e ficar quieto como um baú velho, sem ninguém mexer.
         Ela suspira, irritada com a constatação de que, por maior que fosse seu esforço em esquecer certas coisas, em não tocar no assunto com amigos, parentes, para que nenhum deles possa cometer o deslize de trazer lembranças dolorosas a baila, é ela, e apenas ela que rompe as paredes de sua própria fortaleza e adentra para um massacre particular de suas emoções. As imagens podiam ser oníricas, mas o gosto amargo em sua boca era bem real.

         E há esse peso que a impede até mesmo de se levantar. Ainda chocada pela sua autotraição, questiona-se: Porque? Porque impor que eu veja um teatro maluco encenando possibilidades dolorosas? Porque me jogar coisas na cara quando estou silenciosa e desesperadamente tentando me esquecer delas? Será por isso, para me mostrar que por maior que seja meu esforço em tentar curar as feridas, sempre haverá um rival insuperavelmente mais forte do que eu a rir-se dizendo que de nada adiantará? Que será justamente esta sua força: esperar que eu esteja confiante em minha cura para jogar novamente um balde de acido por cima para que a ferida nunca cicatrize e fique ainda pior?
         Ela segura o travesseiro com força, com raiva.  Tenta conter o ímpeto de dizer um palavrão, gritar ou chorar. Não se dará ao luxo de nenhuma dessas reações explosivas, embora o choro seja o mais perto que ela esteja de fazer.  Só queria que aquilo parasse, e ela pudesse seguir em frente.
         Mas como? Se esse maldito diabo me puxa pelo tapete para trás. Sem dó, pois ele desconhece compaixão.

         Porque você não me deixa em paz?

***

Sad Xmas


Ninguém sai assobiando de um encontro com o próprio passado.

Martha Medeiros


         Cai uma chuva pesada, mas ela não usa suas asas para abriga-la. Quer sentir os pingos vivos e frios caírem sem piedade sobre sua pele, como se quisesse se por a prova e sentir a realidade. Não adianta. Entorpecida esta de tal forma que, nem mesmo o frescor que uma chuva de verão traz a faz emergir para a superfície.
         Passado. É o nome do cenário em que se encontra agora, naufragada novamente no ultramarino tom das profundezas. Nenhuma força faz para emergir. Seus membros, alias, parecem untado de chumbo, se locomovendo pouco. Ela não liga.
         Sob a chuva as luzes natalinas parecem esguichadas nas casas decoradas. A dela não é uma dessas, há muito deixara tais tradições para trás, assim como muitas outras coisas das quais se tornara irreversivelmente descrente. Porém, fora justamente um adorno natalino que a lançara de volta ao passado, que a fizera ir para a chuva e tentar sentir a realidade que lhe escapava cada vez mais pelos dedos, ou talvez...talvez apenas usar a tormenta para esconder suas próprias lágrimas.
         Ela pensou, quando finalmente teve algum motivo para montar sua arvore de natal, justamente as vésperas do mesmo, que aquilo não era a toa. Na verdade, surpreendeu-se ao lembrar o que exatamente  significava.
         Significava a passagem do tempo. A percepção de como o tempo passa num suspiro. E não era um pensamento poético, ela percebeu. Não, era a realidade, pois, olhando em volta ela podia ver sombras do cenário que, naquela mesma data, ela também estava, porém com um ano de diferença. Parou o que estava fazendo, surpresa em como não havia percebido o motivo  de não conseguia pensar no natal como nos outros anos, porque ele parecia bloqueado em sua mente até aquele momento. Porque fora naquela data de estranha aura festiva que tudo mudou. Exatamente nela. Olhou ao redor, pensando em como podia se lembrar de todas as horas daquele dia como se fossem uma contagem regressiva para a tragédia iminente. Pois talvez seja como dizem: você tem seus melhores momentos na iminência da morte.
         E uma parte dela se foi naquele dia. Há um ano atrás, exatamente onde estava. Olhou a arvore pronta, como costumava fazer em épocas vindouras e percebeu que ter tido uma vontade repentina de montá-la parecia uma forma de seu inconsciente de lhe mostrar o que a estava bloqueando, de tirar a venda de seus olhos para sua aversão ao natal daquele ano. Mas será que isso era bom? Ou era um castigo?
         Se estava camuflada até agora, depois da lembrança despertada, fora impossível continuar sob seu disfarce humano. Algo parecia inflar-se dentro de si, como se não coubesse naquela que usava a roupa humana, a expressão que nada revelava. Aquilo que estava dentro de si só encontraria espaço para revelar-se, para não implodi-la se ela se liberta-se da carapaça.
         E por isso estava ali sob a chuva densa, tentando encontrar nos grossos pingos de água gelada algo que neutralizasse a dor que agora sentia, o peso, o arrependimento por tudo ter terminado da forma que acabou. Só não encontrava, e achava que precisava ficar debaixo da chuva apenas para que a solidão a ajudasse a esquecer talvez aquela risada sarcástica do destino a lhe desejar um feliz natal.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A remember...

Ecos e silêncio, paciência e graça
Todos esses momentos eu nunca mais viverei....

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Se eu pudesse...


Se eu pudesse pedir algo, seria para que um dia eu acordasse e descobrisse que tudo mudou. Seria uma benção ser agraciada com a inexistência de minhas lembranças, e não estar mais aqui ao reabrir os olhos de manhã. Que eu pudesse ir para um lugar só meu, onde ninguém me conhecesse e minha vida pudesse recomeçar do zero. Se eu pudesse pedir algo...

            A caneta riscou a madeira na qual apoiava a folha de papel e então ela despertou, percebendo que acabara o espaço que tinha para escrever seu pedido. Piscou os olhos, que se encheram com a luminosidade súbita do dia que ela esqueceu estar ali naqueles poucos segundos no qual sua escrita repuxada rabiscou o pedaço de papel. Suspirou, vendo os poucos que ali estavam naquela hora matutina, visitando o alto do pequeno monte religioso e olhou para o que tinha escrito, percebendo que nada do que quisesse caberia ali. Ao invés de depositar seu pedido na urna que recebia aqueles pedacinhos de agradecimentos, rogos e lastimas, amassou-o na palma de sua mão, deixando a caneta que era usada por tantas mãos, para trás.

            Bem, se eu pudesse pedir algo, é isso. Mas eu sei que ninguém pode me ajudar. Nem o Senhor.

domingo, 22 de julho de 2012

Frase da semana



‘Me irrita como minha voz é bonita… o quão delicado eu sôo quando talvez o que eu esteja cantando seja profundamente ácido’. 

[Thom Yorke, vocalista do Radiohead]

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Eu acredito nisso.

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