domingo, 30 de outubro de 2011

Resultado SALA DE CIRURGIA

Para aqueles que passaram pela sala de cirurgia, deixando sangue e visceras pelo chão, e voltaram vivos para nos contar suas histórias perversas:

O resultado da antologia organizada pela Amanda Reznor, com prefácio de Adriano Siqueira e eu como convidada (êêêê!!):

  
Alastair Dias - ESTUDOS HOSPITALARES

Átila Siqueira - JURAMENTO DE HIPÓCRITAS

Daniel Dutra - LÁBIOS FRIOS

Diessica Sales Lira - A SALA DO TERROR

Eddy Khaos - O DEMÔNIO CIRURGIÃO

Edweine Loureiro - SEGREDOS DO CORAÇÃO

Joe Soares - ALGOZES

Luiz Fabrício Mendes - LOREM IPSUM

Marcelo Jacinto Ribeiro - O PREÇO

Raquel Rosas - DESEJO DE VINGANÇA

Verônica Freitas (Convidada) - ENTRE NÓS

Parabéns a todos!!! 
Aguardando ansiosa o lançamento, já preparando luvas de látex e máscaras, ehehehe.

sábado, 29 de outubro de 2011

Kiss Kiss, um livro surpreendente


Roald Dahl ficou mais conhecido por suas histórias de cunho infanto-juvenil. É autor de "A Fantástica Fabrica de Chocolate" e se o vissemos apenas pelo prisma de contador de histórias fantaticas para crianças, certamente ficariamos na dúvida da alcunha de um livro escrito para o público adulto. Cheguei em "Kiss Kiss" (Beijo ou Beijo com beijo), seu livro de contos de 1959, através de indicações recorrentes, em lugares diferentes, sobre o potencial desse livro para a literatura extraordinária e sombria. Nada indicava que fosse um livro de terror ou fantástico. Apenas que se tratava de uma leitura densa, expressiva, da qual os amantes do genêro (fantástico) recomendavam. Muito curiosa pela certa falta de especificação, lá fui eu.

Fato: é difícil classifica-lo. Mas se eu tivesse de fazê-lo, diria ser um livro de contos bizarros. Não, essa idéia talvez remeta ao subgênero do terror, mas também me enganei ai, apesar da abertura do livro nos presentear com um conto com linhas tipicas do horror. É um livro de contos variados, pendendo para cá e para lá, mas sempre com essa intensidade, que se pensarmos bem, é própria das histórias de Dahl. Veja que, sua mais famosa história, sobre a fabrica de W. Wonka, não é uma mera fábula infantil. Ela tem diversas passagens, que se analisarmos bem, são bem pitorescas, nos dando muito o que pensar sobre questões subjetivas. A menina gulosa e esnobe que se transforma numa bola gigante, os meninos curiosos e desobedientes que são transportados para uma outra dimensão e se tornam tão pequenos quanto formigas, as provações constantes a que são submetidas as crianças, num habitat em que já seria difícil de resistir as tentações, e ainda mais quando é uma fabrica tão incomum, tão única.


Roald Dahl é um contador de histórias incrivel. Todas elas são capazes de te deixar com os pelos da nuca arrepiados, pois nos transporta para um cenário e ação de uma forma rápida e certeira, nos deixando, no final, com muito o que pensar. As questões ocultas que Dahl deixa nas entrelinhas é que torna seus contos e esse livro em especial algo muito valioso, e se no inicio eu sofri uma certa decepção por constatar que não se tratava mesmo de um livro de contos de terror, no final eu me senti feliz por ter adquirido uma obra tão rica em significado, que faz, a cada final, sua mente se exercitar, pensando na moral da história.


Recomendado!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

MAKING OF dos meus contos - VII Demônios (LUXURIA)

It's strange what desire will make foolish people do...
Wicked Games - cover HIM



Em prosseguimento ao Making of dos meus contos na Editora Estronho, faço um parenteses para dizer que muito feliz participo de mais duas antologias da mesma, uma que queria muito (muito) participar e outra que nem esperava (e peguei o bonde andando de ultima hora) fazer parte, mas me deixou igualmente feliz. São a Ira de VII Demônios, ultimo livro da série dos 7 pecados e Quando o Saci encontro os mestres do terror, sobre folclore brasileiro.

Mas hoje falarei do segundo livro que participei da série dos 7 pecados da Estronho, o VII Demônios.


LUXURIA (ASMODEUS)


Pois é, eis outro conto bem inesperado. Eu tinha uma idéia inicial, mas no final o conto foi sobre outra coisa. Eu ia escrever sobre um jovem padre que é tentado por uma criatura sobrenatural (que acabei usando em outro conto que posteriormente submeti a outra seleção, mas não foi escolhido). Estava esperando chegar perto do mês para envio do conto, quando a coisas ficam mais ‘quentes’ (entenda-se: quando o prazo começa a acabar, a inspiração vai ficando mais ativa, mais urgente, eheh), mas ai li uma coisa no chat sobre a antologia, o pessoal falando desse tema e que ele podia ser escrito em duplas pelo teor dele. Eu já sabia disso, mas algo no meio da conversa me fez lembrar de uma coisa interessante que tinha acontecido dias antes. E o start veio.

Eu não tinha um ‘parceiro’, mas tinha tido um sonho e isso era quase como ter uma co-autoria. Onirica, eu sei, estronho mesmo, ehehe!

Como explicar isso: não dá pra explicar, é abstrata demais a idéia, mas foi isso mesmo! Eu resolvi usar um sonho que tivera poucos dias antes e que, no momento, soou-me apenas curioso, irônico. Mas ele tinha as nuances que eu precisava para um conto de luxuria, se eu o moldasse a rigor. E foi o que fiz. A idéia foi instantânea e resolvi mudar meu conto de ultima hora.

E deu certo. Talvez se eu escrevesse sobre a ideia original, para este tema, a coisa não ficasse do jeito que ficou, com a intensidade que ficou.

Foi um conto que vibrei ao saber que fora escolhido para participar da antologia, fora escrito com a intensidade que o tema pedia e a espectativa possuia a mesma ansiedade e desejo. Ele também refletia um certo amadurecimento meu nessa coisa de escrever contos, pois nao era meu forte (não sei se já é, porém, antigamente eu nem passava perto) e foi uma história bem mais dilapidada, que tem a nata da idéia, com cenas que foram cortadas, porém, não exatamente. Digamos que expressar essas cenas que não apareceram na história oficial em algum momento no papel me deu mais seiva para injetar no que ficou na versão final, enquadrada no limite estabelecido pela editora.

Essa história também possui uma série de simbolismos, seja com minha história de vida, seja com imagens do pecado em si e de seu demônio. O cenário é uma escola, ambiente que há muito queria por num conto de terror. O início se passa no final da tarde, periodo que certo ano na adolescencia estudei e que fora o mais privilegiado em se tratando de clima e historias de terror. No final da tarde, os corredores eram banhados com aquela luz alaranjada do crepusculo, num breve intervalo em que as luzes ainda não estavam acessas e o silêncio era profundo. Ninguém tinha coragem de ir até o banheiro nesse horário, pois dizia-se que as luzes se acendiam sozinhas e a loira do banheiro poderia atacar. O cenário do sonho foi esse ambiente escolar hostilizado e não podia ter sido mais apropriado. O conteudo dele pendeu de flertes a situações incestuosas, que me ajudaram a construir uma narrativa que foi inusitada até para mim. A escola se chama Clemente Azevedo, Clemente pelo autor  Clemente Pozzenato de "O Quatrilho", livro que li na mesma biblioteca em que se passa a ação inicial do conto (claro que ela descrita de forma bem maior que a original) e que se constitui de uma história igualmente inusitada, esta de adultério, um dos meus livros favoritos. E Azevedo pelo sobrenome de um grande amigo meu. A tatuagem do galã cafageste da trama foi um dos pontos chaves para que eu ligasse o sonho a idéia do conto. O Ás de Espadas representa, no baralho do tarô cigano, o naipe das paixões violentas e viscerais, os confrontos e tragédias causadas por desejos carnais. Além, claro, de ter em sua figura espetada para cima a ideia clara de um falo, rs.

Minhas inspirações musicais, além das classicas trilhas de Silent Hill, estavam em composições que tinham um quê apimentado, insinuantes. A voz do Lenny Kravitz sempre me lembrou esse tipo de ritmo, de modo que ouvia muito "Fly Away", além da soturna "Glory Box" do Portishead e da versão hard de "Wicked Games" do HIM, que adoro!


"O amor floresce à luz de velas e de conversas. A luxuria é igualmente feliz em vãos escuros e em taxis e sua conversa é feita de grunidos e gritos animais." (p.16)
O trecho é de um livrinho que li da Coleção Sete Pecados Capitais (2004), da Arx, cujo tema da edição Luxuria é esplanada pelo filosofo britânico Simon Blackburn de forma histórica e investigativa. Fora uma leitura bastante interessante para que o tema luxuria ficasse mais, digamos, 'limpo' da simples ideia de sexo que inicialmente tinha. Vemos a concepção de sexo desde os tempos remotos, entranhado em tabus, mitos, religião e arte, até visões atuais, onde a liberdade e a censura ainda encontram terreno fertil para se confrontarem, se envergonharem ou serem elevados a uma lei natural da humanidade.

Eis um trechinho de degustação do meu conto (que, devido a escrita de quase última hora, não teve um titulo tão criativo assim, colocando apenas o cerne da questão): Senhora da Luxuria.

"Foi buscar suas coisas no armário dos professores, bufando, bloqueando a mente para a vozinha impertinente, a lhe lembrar o quão puta estaria sendo se cedesse aos seus desejos. Queria encontrar alguém, e ter uma desculpa para abdicar ao convite, mas não surpreendeu-se ao ver tudo quieto, vazio. Era a única que ficava durante o crepúsculo. Enquanto revirava seus pertences na bolsa, ouviu um gemido. Achou ser sua imaginação perturbada com a quantidade que já ouvira só naquela semana, mas ele se repetiu, mais intenso. Arrepiou-se, olhando ao redor, tentando localizar a fonte. Não vinha de fora.
Andou silenciosamente, ouvindo-o brotar de algum lugar da sala de professores. Viu a porta de mogno fechada e foi o último lugar que imaginou ser a fonte. A porta da sala da diretora."

 (...)




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Os autores selecionados, com os quais compartilho esse volume:
 
Autora Convidada: Ana Cristina Rodrigues (De Pequenas Apostas e Grandes Tentações)
Selecionados: Adrianna Alberti (Nos braços da Tentação), Agostinho Rodrigues Torres (Nunca Suspire ao Lado de Demônios), Alliah (Morgana Memphis Depois das Gungirls), Ana Carolina Silveira (O Último Dia de Sodoma), Carlos Genauch/Simone Procheira (Persuasão), Gabriel M. Hamdan (As Crianças de Bristol), Ghad Arddhu (Cutelo de Prata e a Questão de Dandara), Gisele G. Garcia (Inocente Devassidão), Lemos Milani (H. Willians Hill), Ramon Bacelar (Síndrome de Fuseli), Raphael Montes (A Doce Jekaterina), Raphael O. Lord (Volúpia), Verônica Freitas (Senhora da Luxúria), Victor Meloni (Ressurreição)




domingo, 18 de setembro de 2011

Fuga

        
         Explosões. A menina fazia aparelhos eletrônicos como celulares explodirem nos bolsos e mãos daqueles parasitas sobrenaturais, dando-lhes tempo para uma fuga apressada. A moça fez mais. Fez tudo ir pelos ares.
             Tudo o que importava para eles.
            Estava ali desde o inicio para aquilo. Trabalhou a manhã toda naquele forno que era o subsolo que conservava em temperatura quase infernal aqueles casulos. Precisou se livrar de um ou dois sentinelas, mas já estava acostumada a inconveniências. Só não esperou que precisaria detoná-los antes da hora.
Não. Não era verdade. Se, de tudo o que acontecera naqueles poucos minutos elegesse o que mais a tomou de surpresa, aquela não seria a primeira coisa a lhe vir em mente. 


O choque da explosão ainda retumbava em sua cabeça, mas não tanto quanto a da menina ao seu lado. Ela ainda tremia, apavorada, incapaz de erguer os olhos e ver que já haviam se distanciado. A fumaça preta inundava o céu e tapava momentaneamente o sol, dando ao ar uma aparência empoeirada. Olhando-a, a moça pensava que podia esperar por uma reviravolta qualquer partida deles, daqueles do qual fora atrás. Eram cheios de traição e por mais bem treinada que fosse, haveria sempre algo de novo a se encarar.


Mas ela lhe pegou de surpresa. Não esperava por uma interferência humana, de alguém que precisasse de sua ajuda. Não esperava por ninguém, aliás. Há muito tempo que sua única companhia era o próprio reflexo no espelho do carro e o banco do carona era preenchido pela mochila inseparável. Ela agora jazia desajeitadamente atirada no banco de trás, enquanto a menina, pálida, tentava recuperar a respiração ao seu lado. Aquela situação podia ser uma irrealidade para aquela garota, porém para ela, tê-la em sua companhia em tal momento é que era a verdadeira irrealidade.
            Pisou no acelerador. Não com medo da perseguição, ela talvez viesse. Mas para tirá-la logo dali. O sangue já escorria por entre seus dedos.




            Crepúsculo. 
         O entardecer foi lento e o laranja guinchou, transformando o sol num grande olho vermelho. Isso intensificou a paisagem desértica da encosta da estrada que pegava fogo. Nada daquilo parecia certo, até mesmo para os olhos da moça que planejara algo parecido. Não apenas naquele posto, mas nos outros no raio de distancia que conseguisse alcançar. Planejara por mais de um mês e agora era como se seus pensamentos se traduzissem em atos pelos quatro cantos. O que estava acontecendo? Era a tradução de seu olhar pelo fogo e fumaça que se estendia toda vez que do horizonte vislumbrava-se a estrutura metálica de um posto.  Agora até Maris tinha coragem de olhar, embora seu corpo continuasse tenso, como se do meio daquela fumaça, fosse sair uma horda que as reconheceria e lhe tomariam o encalço.



            Anoitecer. 
         Tudo era longo naquele dia, mas quando o céu mostrou os primeiros tons de anil, logo todo ele se tingiu de negro. Ou talvez fora as nuvens densas que adiantaram o escurecer do dia e o brilho não era das estrelas, mas dos relâmpagos sedentos por se desfazerem em descargas elétricas na terra desprotegida. Fora nesse horizonte apocalíptico que encontraram um desvio na estrada e seguiram por uma trilha no campo deserto. Era como se estivessem se encaminhando mais rapidamente para a tempestade e Maris engoliu a seco a sensação de desconforto com o céu coberto de nuvens imensas de chuva, brilhando de instante em instante como um gênio maligno só esperando elas se aproximarem mais. Sentiu-se pequena diante das rajadas de vento e da poeira que subiu contra o para-brisa, mas sempre que olhava para a mulher que conduzia o veiculo, ela estava da mesma forma que saira daquela lanchonete coalhada de monstros. Impassível, concentrada no que realmente importava. E não era no medo. Perto dela sentia que a escuridão não era a pior das coisas, mas o seu próprio medo diante dela. Tinha de se controlar, ou aquele sangue entre seus dedos não pararia de jorar.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Um dia assombrado

10 anos depois.
Não parece que foi ontem.
O que parece é que a cada ano dessa década que se passou, a chuva e papeis e fumaça toxica que tomou conta não apenas do lugar, mas da mente das pessoas, foi se dissipando. Lentamente. Lentamente. 

Hoje, após uma junção de pequenos fatos revelados de forma perplexa até para os mais esclarecidos, as coisas vão ficando claras, vão tomando forma e significado. Até parece uma pintura de Monet, uma paisagem de sonho que demora para tomar, com a luz do dia, definição.

Mas não estamos falando de um sonho. Não se chega nem sequer perto disso.
Estamos falando de um pesadelo real. Uma combinação mortífera de terror. Mas não se engane, este terror nada tem a ver com o termo que usaram como camuflagem: terrorismo. O verdadeiro terrorismo esta bem aqui, bem longe dos países árabes. Ele esta nas mentes subversivas do capitalismo. 

Não é preciso me embasar em teorias conspiratórias para dizer o que digo. Não existe teoria da conspiração. O que existe é uma maneira de vedar nossos olhos, ridicularizando o óbvio a ponto dele se tornar duvidoso e especulativo. É virar a mesa da verdade a favor de quem quer ganhar o jogo, manipulando o modo como nossas mentes questionam o que é evidente, a ponto disso se tornar uma ilusão, uma faceta confusa. Nós nos tornamos confusos. A realidade se torna ilusória e acreditamos naquilo que nos fazem acreditar. É um jogo mental, antes de mais nada. Uma guerra fria tecnológica, moderna, que se utiliza de disseminação em massa do medo através de imagens hediondas, através de atos indizíveis. O que dizer diante de um ato dessa magnitude? Como podemos nos questionar sobre como tudo isso começou ou quem era o verdadeiro culpado, quando as necessidades mais primitivas estão em alta nos poucos minutos que se tem para se salvar. Ou nas horas em que passamos vendo, bestificados, tudo o que jamais se sonharia acontecer, acontecendo. 

Quem planejou, fez muito bem feito. Cada detalhe sórdido muito bem esquematizado. E duvido muito que isso tenha qualquer coisa a ver com o outro lado do mundo. Uma forma tão massificada e sofisticada de terrorismo germina abundantemente em terras norte americanas há muito mais tempo que a história pode contar. Esta no sangue do poder absoluto: o sacrifício de muitos em prol do beneficio comum. Exemplos não faltam, faltam bocas para dizer, ouvidos para escutar, mentes para interpretar. Um não consegue chegar ao outro e assim, o silêncio se dissemina, como uma ligação cortada no meio.
O som do fosso. Do nada.

Guerra ao terror?
Eu ouvia isso sem entender. Como conseguiram disparar uma chamada dessa tão rapidamente? Como encontraram o alvo, aquele a quem deveriam caçar por ter cometido aquela barbaridade numa velocidade tão impressionante, como se só estivessem esperando um sinal para começar esse teatro?
Deus...

Eu tinha 14 anos e olhava sem entender. A mídia tentava implantar aquele pensamento de qualquer maneira em nossas mentes, despejando de quarto e quarto de hora chamadas sensacionalistas, ditando o caminho que todo o planeta passaria a seguir daquele dia em diante: quem eram os culpados, quem deveríamos odiar, quem deveríamos apoiar nesse momento difícil. E por mais nova que eu fosse, e por mais que minha cabeça pudesse ser facilmente influenciável por esse recurso infalível, eu continuava sem entender. Algo, no fundo de tudo aquilo, não parecia muito certo.
De onde veio essa guerra? Qual o motivo de terem feito isso? Por quê?
Por quê?

Engraçado, ninguém respondia essa pergunta. Todos estavam focados no presente. No futuro. Mas não no passado. Não nos motivos. Era a onda de choque ainda fazendo efeito, sabe? Aquele ataque muito bem coordenado, feito especialmente para abalar as estruturas mentais de meio mundo. Não tínhamos tempo para questionar, estávamos todos muito chocados, perplexos, confusos, como se fossemos nós também que estivéssemos abaixo daquela nuvem monstruosa de fumaça e papel picado que caia vultuosamente sobre todos. Aposto que se fosse mesmo uma represália do terror árabe, ambas as torres estariam de pé, talvez até hoje. Estariam deformadas, como uma chaga, uma cicatriz feia na face do bom menino do ocidente. Teria derretido ambos os andares superiores, e seria uma imagem feia de se ver durante algum tempo, na paisagem nova-iorquina. Mas não. O teatro começou bem antes, e da forma sádica típica que se vê ao longo da historia desse país e desse tipo de povo, que tem raízes em lugares onde o mal parece germinar como uma coisa medonha, em forma de homens de pensamento distorcido. E o palco foi bem preparado, e os atores colocados em seus lugares para desempenhar um papel. Mas neste teatro satânico, tais personagens não tem o direito a decorar um texto. São como uma grande leva de figurantes. Boa parte para desempenhar um papel póstumo. Houvera as vitimas dos aviões, cuja fortaleza aérea norte americana deixou escapar de seu grande olho quatro aviões comerciais das rotas definidas, perdendo-os, num ponto cego, tempo suficiente para que fosse cumprido o intento abissal. Houvera as pessoas nas torres, que ouviram, confusas, do sistema de segurança ativado após as explosões, que deveriam permanecer onde estavam. Na segunda torre, não informaram qual era o problema na primeira e mandaram que todos voltassem para seus escritórios. Um prédio que era considerado uma fortaleza, tinha paredes de concreto falsas, tão frágeis quanto gesso. Fáceis de quebrar, desintegrar...mas de conhecimento restrito. Se as pessoas que ficaram presas la dentro soubessem disso, teriam conseguido se salvar? Orquestravam, silenciosamente, um massacre, uma queimação de arquivo em grande escala. Planejaram as mortes dessas pessoas cuidadosamente, primeiro, porque o impacto de uma carnificina em grande escala seria muito maior do que a de um arranha-céu que queimasse sozinho. Segundo, quem estava la dentro pode constatar que o que estava acontecendo ia muito além de um atentado externo. Estavam diante de um atentado patriótico, para um fim maior, feito de dentro para fora e de fora para dentro, simultaneamente. Foram pegos de surpresa, traídos, e silenciados, muitos, para sempre.

É horrível ver essas cenas e pensar no tamanho dessa crueldade. Mas não adianta pensar nas coisas dessa forma. Para quem fez, isso fora apenas um meio para um fim. Sujo, grandioso, medonho, ousado, insano...era uma forma de marcar, globalmente, e bem, os novos inimigos, os novos objetivos, as novas prioridades. O novo caminho para onde o dinheiro iria caminhar, num duto de ideias pervertidas, de petróleo e de sangue.
Eu vejo essas imagens 10 anos depois e finalmente posso ver. Na época minha grande frustração era não conseguir enxergar o que estava acontecendo sob o véu de confusão a qual estávamos sendo constantemente bombardeados. Eu me esforçava para apurar os olhos e sentir o que via, mas o ruído midiático, politico, de imagens, sons e especulação nos envolvia numa lobotomia passageira que demorou a passar. Eles conseguiram alcançar seus objetivos: fomos tragados e levados pelo mar de desespero junto com as torres que viraram pó. E passamos a acreditar no mantra que eles recitavam, deixando nossas leves suspeitas hibernarem quase que definitivamente sob os 15 cm de poeira densa que sepultou corpos, história, vidas na rua Greenwich.

A ficção imita a realidade, a realidade brinca com a ficção, quase sarcasticamente. Em Watchmen, há um grande plano para a bomba: explodir a cidade mais importante do mundo de modo que o terror gerado com a grande tragédia fomente outro tipo de sentimento, de necessidade. O sacrifício de muitos em prol de um. O profeta Daniel, no capitulo 8 de seu livro na Bíblia, fala sobre um carneiro, cujo dois grandes chifres representavam o norte e o sul, a beira de um rio, atacado por um bode, cuja face era um bico pontudo, que o leva violentamente até o chão. 911 é o número de emergência nos EUA, o número que congestionou em poucos minutos após a primeira explosão. Parece que, não bastasse o vulto da tragédia, ainda tinham que colocar uma pitada subliminar típica no meio de tudo. Ironicamente tipico mesmo.

Teoria da conspiração?
Não. É o espectador que resolve dizer uma verdade inconveniente, como ter visto os fios por trás das marionetes e perguntado os porquês.
Incomoda. E o que incomoda deve ser prontamente solucionado. Espanado para debaixo do tapete, silenciado. Comprado e manipulado. O que deixou escapar é coberto com uma roupagem pomposa, ridicularizado, distanciando assim, a verdade do fio condutor da compreensão.

E hoje o que me incomoda é abrir os olhos e ver e sentir. E a repulsa com o resultado é indizível. Chega a ser suficiente para perder a fé na raça humana, pois hoje temos todos os recursos necessários para sermos diferente, e no entanto, eles continuam sendo usados ao contrário, para causar ainda mais dor e destruição. Deus...será que é uma questão de tempo, de sorte? Será que tivemos apenas uma pequena demonstração do que todo o planeta é? Um grande palco, e nós, seus figurantes sem fala e som?

Como já dizia Albert Einsten:
“A mente que se abre a uma nova idéia, jamais volta ao tamanho original.”

Deve ser esse o grande medo do poder mundial.

Open yours eyes too.



segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O Encontro (final cap.)

Quando não há por onde fugir, recomece.


A moça deu marcha ré, ao perceber que seu caminho estava bloqueado de tal maneira que, se prosseguisse, cairia na armadilha ladina deles. Conhecia aqueles truques. Ao retornar viu a horda escurecendo o seu horizonte, e o modo como o carro voltava para eles era como se estivesse se oferecendo de bom grado para ser o prato principal daquele banquete do diabo. Lutava para encontrar uma brecha que fosse entre os caminhões, da qual pudesse se safar, mas o carro chegava cada vez mais perto deles e nenhuma saída se denunciava.

Foi então que percebeu a menina ao seu lado. Até então era ela, o volante e o retrovisor, nada poderia ser mais importante num momento como este. Mas havia a menina e ela estava tremula demais para pronunciar palavra que fosse, com o ombros virados o máximo para ver, pelo vidro traseiro, que iam perigosamente de encontro ao paredão de homens e mulheres cujos olhos já não eram mais humanos. Os seus estavam vidrados neles, quando viu que não era apenas o carro que se movimentava, mas eles vinham em velocidade na direção do veiculo. Sentiu o impulso que um deles deu para se jogar de encontro ao carro, e quebrar o vidro e enfim se fartar daquela carne e sangue frescos, e soltou um grito mudo. Mudo, pois, apesar de nenhum som ter sido ouvido, era como se as vibrações imaginárias do som atravessassem os vidros e fossem de encontro a eles. Imediatamente se viu uma série de bolsos explodindo e sangue espichando de calças e bustos de camisa. Alguns foram ao chão surpreendidos, gritando de ardor. Outros tentavam entender o que tinha acontecido. 

A moça não parou o carro. Pelo contrário, acelerou. Mesmo com os olhos arregalados pelo que via pelo espelho retrovisor, ela deu uma ré acelerada e passou por cima de muito deles. O carro balançou, som de ossos se partindo se ouviu. Mais gritos. Mas ela continuou. Viu, de relance, que no interior da lanchonete as pessoas começavam a sair, assustadas, para, logo, serem surpreendidas por criaturas que continuavam camufladas em sua inocente pele humana. O frentista, a moça do café, o gerente. Já que estava tudo virado do avesso, que a sutileza com que eles costumavam tratar a aproximação com a pressa fosse substituída por uma ataque direto, sem delongas. Era o que aquela mulher temia, e por isso mesmo acelerou mais, dessa vez, seguindo em frente, para uma saída alternativa, por cima do canteiro de pingos de ouro. Seus espinhos ocultos pelas folhas delicadas se tornaram inofensivos diante das rodas a esmaga-los. 

Correu por fora da pista convencional, acelerou até parecer que os pneus não ajudariam. Olhou a menina que ainda tremia muito, e transpirava, segurando o abdomem ensanguentado, e pegou algo sobre o painel. Parecia uma caixinha de fosforo, com um pequeno botão no meio. Olhou pelo retrovisor as pessoas tentando escapar da investida sanguinária dos seres das trevas, enquanto os outros que se amontoavam no chão tentavam se levantar, entre membros quebrados ou mutilados. O céu era uma mistura de cores desiguais, laranja esguichado do crepúsculo e cinza chumbo da tempestade a caminho. 

Esperou pelo dia de sol mais longo do ano por um longo tempo. Só não podia imaginar que ele seria assim. A idéia era estar bem longe antes que acionasse aquele botão, mas não tinha alternativa. Não veria pessoas sendo mortas por uma falha sua. 

Pediu que a menina tapasse os ouvidos. Ou até fechasse os olhos.

Pois era solstício de verão e o dia ainda estava longe de acabar.



segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Encontro (cont...)



Os toques nunca foram tão difíceis de se concluírem, e seu coração disparou de forma incontrolável ao ouvir a voz distante da irmã. Pelo modo alheio como atendeu, ela podia perceber como estava mergulhada em algum trabalho, absorta e mal lhe daria bola. Mas aquela situação era diferente, a música ao redor não lhe deixava esquecer disto.

Ela tentou explicar o que fizera entre gaguejos e tropeços. Não sabia se fora mal sucedida ou não ou se isso faria diferença. Ela ficou uma fera de qualquer forma.
— Se não queria ir era só ter dito, Nesinha, não precisava me fazer de boba!
— Mas Vanessa...
— Não, você apronta e eu que tenho que sair do meu serviço para te socorrer? Você vai ficar ai e pensar na sua irresponsabilidade, quando eu puder vou te buscar!
E não esperou uma nova intervenção para desligar.


Quando o único som foi o silêncio da ligação caída, Maris sentiu o peito congelar, como se uma brisa soturna tivesse soprado entre escombros de uma explosão. Novamente lhe veio a vontade de chorar, desolada com o abandono e não imaginou que era isso o que estava alimentando as bocas ocultas e famintas do lugar. Quando deu um passo para trás, ainda com o telefone na mão, sentiu a ponta da realidade lhe espetar as costas. Uma realidade bem afiada.
—Fica quietinha.


Fora um segundo confuso, em que temeu ser a moça lá de fora, e em seguida desejou ser, pois a voz masculina a lhe sussurrar com bafo de cigarro aos seus ombros era muito pior. Sentia o sangue nela...e as sombras.
— Você ta comigo, entendeu?
Não entendia, mas sabia que devia seguir suas palavras, mesmo irracionalmente.
Foi levada como se fosse uma velha amiga para fora, mas ao sair pela porta, olhou cautelosamente para os lados. Vendo-se só com a menina, empurrou-a para um canto e passou a examiná-la.
— Certo... – sua boca possuía uma cicatriz que a entortava para o lado e o fazia parecer ainda mais vigarista, suas roupas eram de estranho noir, e a jaqueta lhe dava a sensação de que ele não sentia a temperatura do dia como ela. Quando ele se aproximou, ela tremeu, mas não pode se afastar, pois só havia a parede. Ele passou o dedo por sua pele, e sentiu um arrepio gelado, pois as pontas de seus dedos eram como minúsculas garras afiadas, navalhando sua face. Conteve um gemido ao vê-lo levar o dedo a boca e degustar seu sangue.
— De primeira.
Seu sorriso soturno se acentuou diante da descoberta de que sua presa não era apenas uma simples captura. Estava diante de algo muito mais valioso, e isso a fez encolher-se ainda mais contra a parede, pois sua cobiça por ela era como um sentimento negro emitindo ondas nefastas no ar. Ela arranhou a pintura gasta com os dedos, como se pudesse tirar alguma ajuda dali.
O homem tirou um telefone celular do bolso para avisar os interessados, porém, o mesmo chiado de interferência passou a soar também daquele aparelho. Enquanto tentava descobrir o motivo, ele distraiu-se de Maris, que sentindo certa vantagem, aproveitou para correr. Mas tão logo deu as costas ao estranho, sentiu seus cabelos sendo dolorosamente puxados para trás e abriu a boca para gritar, o que desistiu de fazer após sentir aquele hálito narcótico novamente perto de sua orelha.


Queta, entendeu?


Ele apontou a lamina cintilante da faca para o meio de seus olhos, intimidando-a, mas o reflexo que viu nela acelerou sua pulsação.


— Acho que eu já posso começar a fazer o serviço, eles vão querer uma amostra de você.


E puxou-a mais, avermelhando seu couro cabeludo, como se ela fosse um animal, e levantando sua blusa, expões sua pele branca e tremula. Lançou a lamina contra sua barriga, com intensão de lhe cortar o suficiente para ter um bom filete de sangue para provar quão boa era sua captura. Mas ela debateu-se, e ele se irritou, tampando sua boca com aquela mão imensa e suada, abafando seu grito de dor. Teve ímpeto de aprofundar a lamina, até que ela ficasse quieta de verdade. Mas antes que pudesse, foi surpreendido pelo som do desativar da trava de segurança de uma arma e a sensação do cano duplo e frio em sua nuca.


— Larga a menina.


A voz era tão gélida quanto a boca da arma. Uma sentença que não esperava uma negativa.


— Quê? – virou-se, impávido, para sentir o cano a machucar lhe o flanco do rosto, afundando-se em sua bochecha. Estoico, tentou lançar uma ameaça para aquela que ele via apenas de soslaio.


— Se atirar eu furo ela!


Mas tudo o que ouviu em resposta foi uma risada debochada e o mesmo tom de voz monocromático.


— Eu consigo matar você primeiro.


Aquilo fez o homem ficar sem ação e sua testa começou a se inundar de gotículas de suor. Maris tremia, sufocada, sob a mão fedorenta do carrasco.


— E então, como vai ser, eu já estou mesmo suja de sangue, um pouco mais dele não vai fazer diferença. – e quando ele tentou retalhar o aviso, voltando-se novamente para ela, seu rosto foi duramente golpeado pelo coldre de madeira. Atordoado, ele deixou a menina se desvencilhar de sua mão, e ela tentou correr, pedindo ajuda dentro do posto, mas novamente foi barrada, porém, dessa vez pela moça.


— Faça isso e você vai encontrar mais dez iguais a ele lá dentro! – e enquanto tinha a blusa manchada de sangue dela em sua mão, impedindo-a de correr, a outra empunhou o rifle para o homem que tentou arremeter contra elas com a faca. — Cara, eu não to brincando!


Seus olhos miraram bem no meio da cabeça dele, e seu dedo coçava, com vontade de apertar o gatilho. A única coisa que a detinha era o barulho. Droga, era pra sair daqui sem ninguém perceber! O homem de cabelos pretos e rosto cicatrizado não tirava aquele sorrisinho mordaz da boca torta, percebendo que ela já hesitava demais para quem pretendia atirar. E esse tempo era o suficiente para chamar reforços.
E era o que ele estava fazendo, ao esfregar os dedos uns contra os outros como fazia agora, emitindo um som quase imperceptível, mas que ela sabia bem que ouvidos e sentidos de seres como ele entenderiam de longe. Os pelos de sua nuca se eriçaram, e ela se viu com o tempo que calculara reduzido a quase nada.


— Pega a chave que ta no meu bolso e corre pro carro preto no estacionamento, guria! – ela não iria entender e ela precisaria falar uma segunda vez até desperta-la do torpor, mas para sua surpresa, ela só perguntou:
— Qual deles?

Maris correu como se houvesse um enxame de abelhas atrás de si. Era um jeito quase poético de pensar, se comparasse aquela situação ao que realmente estava vivendo. O barulho do tiro quase a fez cair no chão de medo, lembrava-se que era assim que acontecia, o instinto do corpo em proteger-se, mas ela não permitiu-se encontrar o chão, usou-o apenas como apoio, para continuar correndo mais.
Concentrou-se na chave. Eram três e um chaveiro com o logotipo de um hospital de sua cidade. Tentou não pensar que aquilo não combinava com a moça que estava lá atrás, matando. Suas mãos tremiam demais para perder tempo, nem mesmo sabia qual delas era...
Levou um susto quando o molho foi tirado subitamente de suas mãos. Ergueu os olhos e viu uma sombra enorme e mais adiante o homem colossal e careca que sentava-se numa mesa próxima ao telefone quando o usou dentro da lanchonete. Ele, por si só, já a matava de medo, isso antes de ver seu olhar brilhando de uma maneira que não podia ser normal.


— Sangue de virgem, sabia que você me cheirava bem.


E veio calmamente em sua direção, com intenção de, sem muito esforço, estrangula-la com suas mãos. Do modo como a olhava fixamente, para ele não havia nada que pudesse perturbá-lo desse intento.


Bang!


Não era como a onomatopeia de uma animação. O som real era oco e impactante, como se fizesse tremer os seus ossos. Teve de fechar os olhos para suportar o choque inicial, como se tudo passasse a transcorrer em câmera lenta. Ao reabri-los, aquele homem colossal estava no chão, com as mãos cheias de sangue segurando a perna estourada pelo grosso calibre da arma. Grunia como um touro bravo, e fazia força para levantar-se do chão, encarando aquela moça loura e baixa que o alvejara e que ainda tinha empunhada a arma, que sem hesitação apontava para sua cabeça. Estava afoita e o sangue manchava o pouco que ainda restava limpo de seu corpo.
E ela olhou para Maris, que a olhava aterrorizada com a idéia de assistir a execução daquele homem em sua frente. Ela abaixou a arma surpresa em como estava deixando o sangue lhe subir a cabeça com o inesperado confronto em que teve que se meter e não perdeu tempo com maiores reflexões. Pegou as chaves que escaparam da mão do gigante antes que ele as tomasse novamente e fez a menina entrar dentro do carro, correndo para o outro lado, dando ré a tempo de pegar o homem conseguindo se levantar. O derrubou novamente e sentiu os pneus passando por cima de um ou dois de seus membros. Ou talvez até o corpo todo. Não podia parar para pensar, ele estava tendo o que merecia.
Acelerou para sair do estacionamento, enquanto Maris ainda tentava se localizar dentro daquela confusão. Haviam muitos carros estacionados naquele momento, e carretas que bloqueavam a visão do resto da passagem para a rodovia. Aquele labirinto parecia feito de proposito, para deixar perdido aqueles que não deveriam sair do posto antes de devidamente saboreados. Muitos apenas de maneira vital, outros de forma efetivamente degustativa. Para a moça, aquilo aquela uma merda. Sabia muito bem que aqueles caras poderiam parar seu carro se quisesse. Mesmo se ele estivesse passando por cima deles.


— Põe o cinto, guria! – não era algo que ela tivesse feito, mas ela já estava acostumada a coisas como aquela, mas não queria que a garota se machucasse com o que iria fazer.


Maris olhou para o retrovisor enquanto prendia o cinto e viu a orda vindo tão rápido que pareciam andar na mesma velocidade que o automóvel. Seu suor nervoso se confundia com o dia abafado e ela sentia que não havia ar para respirar ali dentro do carro em brasa. Mas não ousaria abrir um milímetro daquele vidro. Era apenas aquilo que a separava daquele mundo repentinamente transformado em caos.

Não atrevia-se a perguntar coisas bobas como Quem são eles? O que esta acontecendo? Tinha uma idéia, mesmo que fosse absurdo, ainda assim a tinha. E sabia que uma mulher como aquela precisa de tempo e a mente limpa para poder pensar em algo que as tirasse daquela situação. E lhe deu aquele tempo através de seu silêncio.

(...)
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