segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O Encontro (cont...)



Os toques nunca foram tão difíceis de se concluírem, e seu coração disparou de forma incontrolável ao ouvir a voz distante da irmã. Pelo modo alheio como atendeu, ela podia perceber como estava mergulhada em algum trabalho, absorta e mal lhe daria bola. Mas aquela situação era diferente, a música ao redor não lhe deixava esquecer disto.

Ela tentou explicar o que fizera entre gaguejos e tropeços. Não sabia se fora mal sucedida ou não ou se isso faria diferença. Ela ficou uma fera de qualquer forma.
— Se não queria ir era só ter dito, Nesinha, não precisava me fazer de boba!
— Mas Vanessa...
— Não, você apronta e eu que tenho que sair do meu serviço para te socorrer? Você vai ficar ai e pensar na sua irresponsabilidade, quando eu puder vou te buscar!
E não esperou uma nova intervenção para desligar.


Quando o único som foi o silêncio da ligação caída, Maris sentiu o peito congelar, como se uma brisa soturna tivesse soprado entre escombros de uma explosão. Novamente lhe veio a vontade de chorar, desolada com o abandono e não imaginou que era isso o que estava alimentando as bocas ocultas e famintas do lugar. Quando deu um passo para trás, ainda com o telefone na mão, sentiu a ponta da realidade lhe espetar as costas. Uma realidade bem afiada.
—Fica quietinha.


Fora um segundo confuso, em que temeu ser a moça lá de fora, e em seguida desejou ser, pois a voz masculina a lhe sussurrar com bafo de cigarro aos seus ombros era muito pior. Sentia o sangue nela...e as sombras.
— Você ta comigo, entendeu?
Não entendia, mas sabia que devia seguir suas palavras, mesmo irracionalmente.
Foi levada como se fosse uma velha amiga para fora, mas ao sair pela porta, olhou cautelosamente para os lados. Vendo-se só com a menina, empurrou-a para um canto e passou a examiná-la.
— Certo... – sua boca possuía uma cicatriz que a entortava para o lado e o fazia parecer ainda mais vigarista, suas roupas eram de estranho noir, e a jaqueta lhe dava a sensação de que ele não sentia a temperatura do dia como ela. Quando ele se aproximou, ela tremeu, mas não pode se afastar, pois só havia a parede. Ele passou o dedo por sua pele, e sentiu um arrepio gelado, pois as pontas de seus dedos eram como minúsculas garras afiadas, navalhando sua face. Conteve um gemido ao vê-lo levar o dedo a boca e degustar seu sangue.
— De primeira.
Seu sorriso soturno se acentuou diante da descoberta de que sua presa não era apenas uma simples captura. Estava diante de algo muito mais valioso, e isso a fez encolher-se ainda mais contra a parede, pois sua cobiça por ela era como um sentimento negro emitindo ondas nefastas no ar. Ela arranhou a pintura gasta com os dedos, como se pudesse tirar alguma ajuda dali.
O homem tirou um telefone celular do bolso para avisar os interessados, porém, o mesmo chiado de interferência passou a soar também daquele aparelho. Enquanto tentava descobrir o motivo, ele distraiu-se de Maris, que sentindo certa vantagem, aproveitou para correr. Mas tão logo deu as costas ao estranho, sentiu seus cabelos sendo dolorosamente puxados para trás e abriu a boca para gritar, o que desistiu de fazer após sentir aquele hálito narcótico novamente perto de sua orelha.


Queta, entendeu?


Ele apontou a lamina cintilante da faca para o meio de seus olhos, intimidando-a, mas o reflexo que viu nela acelerou sua pulsação.


— Acho que eu já posso começar a fazer o serviço, eles vão querer uma amostra de você.


E puxou-a mais, avermelhando seu couro cabeludo, como se ela fosse um animal, e levantando sua blusa, expões sua pele branca e tremula. Lançou a lamina contra sua barriga, com intensão de lhe cortar o suficiente para ter um bom filete de sangue para provar quão boa era sua captura. Mas ela debateu-se, e ele se irritou, tampando sua boca com aquela mão imensa e suada, abafando seu grito de dor. Teve ímpeto de aprofundar a lamina, até que ela ficasse quieta de verdade. Mas antes que pudesse, foi surpreendido pelo som do desativar da trava de segurança de uma arma e a sensação do cano duplo e frio em sua nuca.


— Larga a menina.


A voz era tão gélida quanto a boca da arma. Uma sentença que não esperava uma negativa.


— Quê? – virou-se, impávido, para sentir o cano a machucar lhe o flanco do rosto, afundando-se em sua bochecha. Estoico, tentou lançar uma ameaça para aquela que ele via apenas de soslaio.


— Se atirar eu furo ela!


Mas tudo o que ouviu em resposta foi uma risada debochada e o mesmo tom de voz monocromático.


— Eu consigo matar você primeiro.


Aquilo fez o homem ficar sem ação e sua testa começou a se inundar de gotículas de suor. Maris tremia, sufocada, sob a mão fedorenta do carrasco.


— E então, como vai ser, eu já estou mesmo suja de sangue, um pouco mais dele não vai fazer diferença. – e quando ele tentou retalhar o aviso, voltando-se novamente para ela, seu rosto foi duramente golpeado pelo coldre de madeira. Atordoado, ele deixou a menina se desvencilhar de sua mão, e ela tentou correr, pedindo ajuda dentro do posto, mas novamente foi barrada, porém, dessa vez pela moça.


— Faça isso e você vai encontrar mais dez iguais a ele lá dentro! – e enquanto tinha a blusa manchada de sangue dela em sua mão, impedindo-a de correr, a outra empunhou o rifle para o homem que tentou arremeter contra elas com a faca. — Cara, eu não to brincando!


Seus olhos miraram bem no meio da cabeça dele, e seu dedo coçava, com vontade de apertar o gatilho. A única coisa que a detinha era o barulho. Droga, era pra sair daqui sem ninguém perceber! O homem de cabelos pretos e rosto cicatrizado não tirava aquele sorrisinho mordaz da boca torta, percebendo que ela já hesitava demais para quem pretendia atirar. E esse tempo era o suficiente para chamar reforços.
E era o que ele estava fazendo, ao esfregar os dedos uns contra os outros como fazia agora, emitindo um som quase imperceptível, mas que ela sabia bem que ouvidos e sentidos de seres como ele entenderiam de longe. Os pelos de sua nuca se eriçaram, e ela se viu com o tempo que calculara reduzido a quase nada.


— Pega a chave que ta no meu bolso e corre pro carro preto no estacionamento, guria! – ela não iria entender e ela precisaria falar uma segunda vez até desperta-la do torpor, mas para sua surpresa, ela só perguntou:
— Qual deles?

Maris correu como se houvesse um enxame de abelhas atrás de si. Era um jeito quase poético de pensar, se comparasse aquela situação ao que realmente estava vivendo. O barulho do tiro quase a fez cair no chão de medo, lembrava-se que era assim que acontecia, o instinto do corpo em proteger-se, mas ela não permitiu-se encontrar o chão, usou-o apenas como apoio, para continuar correndo mais.
Concentrou-se na chave. Eram três e um chaveiro com o logotipo de um hospital de sua cidade. Tentou não pensar que aquilo não combinava com a moça que estava lá atrás, matando. Suas mãos tremiam demais para perder tempo, nem mesmo sabia qual delas era...
Levou um susto quando o molho foi tirado subitamente de suas mãos. Ergueu os olhos e viu uma sombra enorme e mais adiante o homem colossal e careca que sentava-se numa mesa próxima ao telefone quando o usou dentro da lanchonete. Ele, por si só, já a matava de medo, isso antes de ver seu olhar brilhando de uma maneira que não podia ser normal.


— Sangue de virgem, sabia que você me cheirava bem.


E veio calmamente em sua direção, com intenção de, sem muito esforço, estrangula-la com suas mãos. Do modo como a olhava fixamente, para ele não havia nada que pudesse perturbá-lo desse intento.


Bang!


Não era como a onomatopeia de uma animação. O som real era oco e impactante, como se fizesse tremer os seus ossos. Teve de fechar os olhos para suportar o choque inicial, como se tudo passasse a transcorrer em câmera lenta. Ao reabri-los, aquele homem colossal estava no chão, com as mãos cheias de sangue segurando a perna estourada pelo grosso calibre da arma. Grunia como um touro bravo, e fazia força para levantar-se do chão, encarando aquela moça loura e baixa que o alvejara e que ainda tinha empunhada a arma, que sem hesitação apontava para sua cabeça. Estava afoita e o sangue manchava o pouco que ainda restava limpo de seu corpo.
E ela olhou para Maris, que a olhava aterrorizada com a idéia de assistir a execução daquele homem em sua frente. Ela abaixou a arma surpresa em como estava deixando o sangue lhe subir a cabeça com o inesperado confronto em que teve que se meter e não perdeu tempo com maiores reflexões. Pegou as chaves que escaparam da mão do gigante antes que ele as tomasse novamente e fez a menina entrar dentro do carro, correndo para o outro lado, dando ré a tempo de pegar o homem conseguindo se levantar. O derrubou novamente e sentiu os pneus passando por cima de um ou dois de seus membros. Ou talvez até o corpo todo. Não podia parar para pensar, ele estava tendo o que merecia.
Acelerou para sair do estacionamento, enquanto Maris ainda tentava se localizar dentro daquela confusão. Haviam muitos carros estacionados naquele momento, e carretas que bloqueavam a visão do resto da passagem para a rodovia. Aquele labirinto parecia feito de proposito, para deixar perdido aqueles que não deveriam sair do posto antes de devidamente saboreados. Muitos apenas de maneira vital, outros de forma efetivamente degustativa. Para a moça, aquilo aquela uma merda. Sabia muito bem que aqueles caras poderiam parar seu carro se quisesse. Mesmo se ele estivesse passando por cima deles.


— Põe o cinto, guria! – não era algo que ela tivesse feito, mas ela já estava acostumada a coisas como aquela, mas não queria que a garota se machucasse com o que iria fazer.


Maris olhou para o retrovisor enquanto prendia o cinto e viu a orda vindo tão rápido que pareciam andar na mesma velocidade que o automóvel. Seu suor nervoso se confundia com o dia abafado e ela sentia que não havia ar para respirar ali dentro do carro em brasa. Mas não ousaria abrir um milímetro daquele vidro. Era apenas aquilo que a separava daquele mundo repentinamente transformado em caos.

Não atrevia-se a perguntar coisas bobas como Quem são eles? O que esta acontecendo? Tinha uma idéia, mesmo que fosse absurdo, ainda assim a tinha. E sabia que uma mulher como aquela precisa de tempo e a mente limpa para poder pensar em algo que as tirasse daquela situação. E lhe deu aquele tempo através de seu silêncio.

(...)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...